É possível conviver com uma mãe narcisista?

Sobre mães que competem, invejam e agridem suas filhas:

Tornei-me especialista no atendimento de filhas e filhos que chegam ao meu consultório pedindo ajuda psicológica para conseguirem compreender a trama familiar na qual foram envolvidos.

Após tornar consciente esse funcionamento perverso e aniquilador, os filhos, destas mães, passam a ter de tomar uma decisão que tanto os afligem: afastarem-se de sua mãe para preservar sua integridade psíquica e até mesmo sua integridade física. Há casos em que a lei “Maria da Penha” está sendo utilizada para proteger a filha das agressões e da ameaça de morte que a mãe pratica.

Não obstante, há graduações do narcisismo que também comprometem muito a vida das filhas e as relações em família e na sociedade. Muitos casos nem chegam a vir à tona. Muitas filhas podem passar uma vida inteira sendo aprisionadas neste funcionamento até a morte de sua mãe. Muitas acabam escolhendo um parceiro afetivo (marido) com o mesmo perfil da mãe, para dar continuidade a este funcionamento perverso, pois aprenderam que esta era a única forma que poderiam ou conseguiriam manter as relações.

Frequentemente ouço destas filhas (a maior incidência, considerando a estatística, ocorre na relação de mães com suas filhas, embora haja vários casos de mães que atuam desta forma com os filhos também), um relato repleto de sentimentos de culpa e uma autoestima muito reduzida, quase aniquilada. Geralmente são filhas muito inteligentes, com qualidades pessoais marcantes (têm compaixão pelas pessoas, empatia, são generosas e altruístas). Um prato cheio nas mãos de uma mãe narcisista. Lembrando: a mãe narcisista inveja a filha e tenta aniquilar o que ela tem de bom, como aparece no Conto da Cinderela com a sua madrasta. Mas aqui estamos falando da mãe. A madrasta já se apresenta dentro deste mito e desta configuração de “má-drasta”. A mãe, ao contrário, está protegida pela sociedade e pelas religiões.

As filhas geralmente se sentem culpadas por não “conseguirem” amar sua mãe que faz de tudo para mascarar a sua própria personalidade. Sempre alegando ser uma boa mãe e muitas vezes seduzindo com presentes ou outras manifestações compensatórias. Muitas alegam que o fato de terem dado a vida à filha já é a prova maior do amor que nutrem por elas e que fazem de tudo para que elas sejam felizes. Muitas chegam a adoecer fisicamente pela raiva – que sentem ciúmes, inveja, e alegam que a dor e a frustração constante advém do fato da filha não ser uma “boa filha” e de exigir que ela pense e faça o que a mãe deseja. As mães narcisistas querem que suas filhas sejam uma extensão delas mesmas. Uma extensão de seu ego vaidoso. Todas as conquistas realizadas pelas filhas devem ser colocadas a serviço da mãe narcisista. E os fracassos devem ser omitidos, pois atingiriam a imagem da mãe por ser a extensão dela.

A característica predominante no comportamento da mãe narcisista é a manipulação. São exímias manipuladoras e geralmente escolhem seu parceiro afetivo a dedo, com base na personalidade adaptável deste. São homens omissos, facilmente influenciáveis. Eles permitem esta manipulação e tornam-se cúmplices da mãe manipuladora. Participam desta trama, abandonando as filhas e deixando-as sobre as rédeas da mãe má. Mesmo que percebam a atuação da mãe, da sua “companheira”, são homens fracos de caráter e personalidade e acabam por permitir as agressões, muitas vezes veladas pelo próprio pai (guardadas em segredo).

A principal ferramenta que estas mães utilizam é a culpa, a chantagem e o abandono emocional. Estes homens, pelo perfil psicológico que apresentam (muitos são melancólicos, depressivos, com escassos recursos internos) acabam por completar a atuação perversa da sua “companheira”, para se proteger dela. Há um preço alto a pagar caso eles não atendam aos desejos narcísicos de sua esposa.

Ah, detalhe importante:

Sim, estamos falando de mães más! Precisamos derrubar o mito de que todas as mães, pelo fato de se tornarem mães (gerarem ou parirem filhos) são boas e vão para o céu! Existem mães perversas, egocêntricas, aniquiladoras, psicopáticas.

Durante anos e anos, as religiões trataram de colocar a mãe ao lado da Virgem Maria ou nas tais “escrituras sagradas” enaltecer o mandamento: “Honrar pai e mãe”. As mães adquiriram poderes sobrenaturais. De fato, elas foram empoderadas pelas religiões e pela sociedade. Estão escondidas dentro desta capa de mãe boa, a qual deve ser honrada para que seus filhos sejam abençoados.

Infelizmente existem algumas abordagens ditas terapêuticas (ainda não reconhecidas pela Ciência ou pelo CFP, felizmente!) que se utilizam destes meios de manipulação para implantar esse chip na cabeça de muitos filhos e filhas. Existem até “workshops” que tratam deste tema afirmando que enquanto os filhos não honrarem seus pais e seus antepassados, eles não terão progresso financeiro. Outra ferramenta de poder, de manipulação: o dinheiro!

Num contexto de crise econômica e política que todos nós vivenciamos atualmente, este é o cenário propício para estas pessoas que se dizem “terapeutas” ou psicoterapeutas usarem dessas manobras para ganhar muito dinheiro à custa da fragilidade de tanta gente que sofre pela incompreensão da sua situação ou contexto de vida nas relações familiares. Bom, este é outro tema a ser discutido.

A questão aqui é desmistificar a mãe. Mãe e pai são seres humanos iguaizinhos a qualquer outro ser humano e habitam o mesmo planeta no qual todos nós habitamos. Portanto, são falhos, imperfeitos. No caso da mãe narcisista, o grau da patologia pode até mesmo colocar em risco a vida das filhas. Algumas prometem (e algumas conseguem esse feito!) matar suas filhas se elas não “obedecerem” aos comandos delas. Geralmente elas elegem uma das filhas para vender a ideia de que é a mais amada, a preferida da mãe. Somente para criar um corredor de confronto com a outra irmã ou com as outras irmãs. E assim continuar o seu reinado (dividir a família para reinar). A vida familiar torna-se uma batalha constante, mas só há um vencedor: a mãe narcisista.

Outra característica da mãe narcisista é a preocupação exagerada com a sua aparência física, principalmente com o rosto. Elas querem permanecer eternamente jovens e atraentes. É uma das principais ferramentas que utilizam para manter o seu companheiro na promessa de uma vida conjugal feliz. Também utilizam a beleza física para seduzir outras pessoas. Implicam e destroem a autoestima da filha que tiver obesidade. Ou qualquer “inconformidade” com o corpo, pois a mãe se utiliza da beleza da filha para ser reconhecida socialmente.

Diante de tragédias na família ou de conflitos maiores, torna-se visível (aos olhos de quem está de fora deste contexto familiar) a frieza da mãe narcísica que dificilmente sofre com a perda, inclusive a do cônjuge.

Estou exagerando? Não. Eu presencio isso quase diariamente no meu consultório de Psicologia. Sei muito bem da realidade destes filhos que sofrem calados durante muitos anos. Quando os filhos conseguem se desvencilhar da mãe real e matar a mãe idealizada que habita seu imaginário psíquico, geralmente a mãe passa a tentar boicotar a psicoterapia ou até mesmo ameaçar o psicólogo que está promovendo saúde mental em seu filho (ou filha).

Enfim, no artigo anterior, eu descrevo detalhadamente a personalidade narcísica, sua atuação e seu efeito devastador.

Neste artigo, o alerta que eu faço é para que nossa sociedade permita que todas as mães sejam tratadas como seres humanos comuns, ao invés de idolatrá-las ou santifica-las.

Muitas filhas estão vivendo em verdadeiros cárceres privados com a cumplicidade das religiões e de uma sociedade que aprendeu a jogar para baixo do tapete a sua própria sujeira. Somos todos co-responsáveis por fazer de conta que todas as mães são boas e merecem o céu.

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