Onde está a felicidade?

Apenas dez letras compõem essa palavra: felicidade. Poucas letras, uma pequena palavra contendo infinitas possibilidades. Uma única palavra e milhares e milhares de definições ou expressões do seu significado. Tão complexo e tão simples ao mesmo tempo. Um verdadeiro paradoxo.

O cotidiano reserva surpresas que nos colocam diante das célebres perguntas que os pensadores fizeram há muito tempo, na história da humanidade. Perguntas que os poetas tentaram expressar em meio a seus devaneios. Religiões foram criadas na tentativa de buscar um significado para nossa existência, uma razão, uma finalidade.

Quem somos nós? Qual o propósito da nossa vida? De onde viemos? Para onde vamos? Qual o sentido da nossa existência?

Em meio a esse estado caótico que o mundo vive hoje, com a economia brasileira tentando se equilibrar no fio da navalha, a política e a sociedade em crise (de valores), ataques terroristas espalhados pelo mundo a fora, promovidos por “guerras santas” e disputas por igualdade através da discriminação e da frieza de corações endurecidos, o ecossistema abalado, “nosso” planeta febril.

Talvez a origem da palavra felicidade esteja justamente na consciência (ou falta de) de que não somos donos do planeta no qual habitamos por uma temporada curta. Não somos donos dessas terras, elas foram apenas emprestadas quando nascemos mas disputamos cada território, cada pedacinho deste chão como se fosse nossa propriedade. Uma disputa, representada muito bem pelas crianças na fase egocêntrica quando brigam por um brinquedo, de repente, esse brinquedo se parte ao meio e ambos ficam sem a possibilidade de prosseguir na sua busca por prazer ou felicidade efêmera. Agora, brigamos pelo que restou do brinquedo.

A Era da Modernidade e da Pós-Modernidade trouxe algumas contradições. Avançamos muito em tecnologias, em vários segmentos, mas, curiosamente, o homem está sendo vencido por insetos. Dengue, zika e chikungunya, vírus e bactérias em mutação avançam rapidamente, matando muitas pessoas. Quando não matam, propaga a própria mutação de seres humanos (como é o caso da hidrocefalia associada ao zica vírus), exatamente o que nós, “humanos”, fizemos com a natureza, com a nossa casa emprestada, com o planeta que habitamos temporariamente. Alguns ditados populares parecem fazer muito sentido diante desse cenário: “Não há plantio sem colheita”.

Estamos respondendo pelas conseqüências, diante da lei universal de causa e efeito, por todos os nossos atos de irresponsabilidade e desumanidade.

Parece que estamos colhendo exatamente o que plantamos há muito tempo. Mas ainda não queremos admitir isso, a nossa parte, a nossa responsabilidade. A conta (a dívida que criamos) está chegando a nossa casa e nem temos saldo positivo para pagá-la. Desta maneira vamos arranjando culpados: o governo, as religiões, os políticos, os partidos (a esquerda, a direita), a mídia e outros algozes. E assim vamos propagando o mal do século: o ódio. Fortalecemos ainda mais o que deveríamos ter transcendido depois de tantos anos de evolução.

A lista é numerosa. Vários criminosos, menos a gente. Nós somos vítimas, é claro. Vítimas do “sistema”, da violência, da impunidade e assim por diante. Elegemos alguns sequestradores para não reconhecer a nossa participação nesse cativeiro.

Mas o que a felicidade tem a ver com tudo isso?

Ela não estaria à parte dessa realidade? Nas letras das músicas românticas, nos poemas, nos textos literários e até mesmo em algumas correntes teóricas da Psicologia, nos livros de auto-ajuda, na estante juntando poeira, na internet, nas redes sociais, nas frases de efeito?

Estamos sendo mais do que sacudidos, estamos dentro de um liquidificador sendo triturados e misturados, em velocidade máxima (e não é um filme da Tela Quente da Rede Globo). Não é mais ficção. É realidade.

Não me entendam mal. Não quero passar nenhum pensamento derrotista ou catastrófico, minha intenção não é esta! Nem teria esse poder frente às catástrofes ditas naturais e aquelas provocadas por todos nós.

Por esses dias, estava tomando um café com uma amiga, quando esta me chamava a atenção para não pensar “negativamente”. Então, rapidamente lhe respondi: “Não sou pessimista, sou realista. Existe uma grande diferença nisso”.

E creio que enquanto estivermos olhando para o nosso próprio umbigo e assim defendermos um ou outro partido, um ou outro sistema, uma ou outra religião, um branco ou um negro, um pobre ou um rico, um heterossexual ou um homossexual, uma família nuclear ou a diversidade de configurações familiares, uma ou outra corrente teórica, não sairemos desse caos instalado, não sairemos de dentro desse liquidificador.

Eu acredito na Vida e na inteligência suprema de nossa existência, mas até a vida se cansa diante das nossas “atrapalhadas” e principalmente das nossas resistências.

E a felicidade? Explica-me? Defina-se?

Onde ela está? Qual a sua forma?

Quem sabe, depois de todo esse processo de profunda reforma íntima, a gente descubra que, tudo o que estamos passando, nas palavras de Rui Barbosa, consiste no sentimento da felicidade alheia, generosamente criada por um ato nosso.

Se ainda precisamos de definição para a felicidade, já que não a encontramos em plenitude, felicidade, para mim, é sinônimo de amor.

Amor pelo próximo, amor genuíno, verdadeiro, não desses que se vende em prateleiras de supermercado, em estantes, em promessas de cura ou de salvação por separação. Não! É amor por toda humanidade. É pura compaixão. É o real desejo de ver o outro ser humano feliz. Porque o outro é o nosso espelho, é feito da mesma matéria, veio de onde nós viemos e, com certeza, terminará do mesmo jeito. Um dia tudo finda, até a gente.

Eu choro e me entristeço quando erguemos bandeiras para nos salvar. Mas nenhuma bandeira se sustentará se não for por amor.

“Onde está a felicidade? No amor, ou na indiferença? Na obediência, ou no poder? No orgulho, ou na humildade? Na investigação, ou na fé? Na celebridade, ou no esquecimento? Na nudez, ou na prosperidade? Na ambição, ou no sacrifício? A meu ver, a felicidade está na doçura do bem, distribuído sem ideia de remuneração. Ou, por outra, sob uma fórmula mais precisa, a nossa felicidade consiste no sentimento da felicidade alheia, generosamente criada por um ato nosso”.
Rui Barbosa

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