O Mito do Psicoterapeuta Perfeito

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De tempos em tempos recebo um “recadinho” de alguém me alertando:

“Patrícia, acho que tu deves cuidar com o que tu escreves e com o que publicas nas páginas das redes sociais. Afinal, tu és uma psicóloga, uma figura pública! Isso pode pegar mal para ti… Não achas estar te expondo demais com os teus comentários e publicações?”.

Então resolvi esclarecer melhor tal contradição. Sim, há uma contradição porque não consigo conceber a ideia de um psicólogo que não pense, não reflita e não proponha questionamentos. Mas, a pedido de alguns, vamos lá:

Possuo duas páginas na rede social Facebook. Uma página é destinada para assuntos relacionados exclusivamente à Psicologia e áreas afins. Nesta página são publicados artigos, crônicas, vídeos, conteúdos desenvolvidos por mim e por outros colegas para que as pessoas tenham acesso ao que se produz através desta Ciência e Profissão que cada dia me encanta mais. Na outra página, uma página pessoal, onde tenho pacientes que também frequentam, costumo postar minhas vivências, experiências, viagens, etc.

Então, diante do zum-zum-zum, fiquei pensando em outras situações da vida de um psicoterapeuta, quando ele vai ao supermercado num fim de semana sem “se produzir” para agradar à sociedade, quando está na fila de um plantão de urgência e emergência a espera de um atendimento, quando está internado num hospital em caso de adoecimento, se briga no trânsito “quando sai de si”, quando vai a um bar à noite ou a algum espetáculo na cidade onde seus pacientes também circulam, quando se separa, se divorcia, quando faz terapia, quando sofre, chora, enfim, quando mostra sua vulnerabilidade.

Fiquei pensando nesses “tais psicoterapeutas humanos”, como devem ser vistos e interpretados por algumas pessoas que aprenderam a usar as máscaras da sociedade que aplaude somente os que mentem felicidade permanente. Os “psicoterapeutas humanos”, aos olhos de parte da sociedade, parecem não ser bons profissionais porque não sustentam o mito do terapeuta perfeito. E nossa sociedade é criada por mitos. Mas, os “psicoterapeutas humanos” rasgaram este mito há muito tempo, desde a infância. Eles não escolhem a profissão, é a própria profissão que os escolhem desde cedo. Porque conhecem, desde cedo, a dor da alma, passaram por situações traumáticas e não apenas compreendem a sua dor, mas aprenderam a compreender a dor do outro. Sentem junto, por isso são empáticos e profundamente confiáveis. Mas, é verdade, eles não são “normóticos”. Não permanecem dentro da caixa social.

Por não serem “normóticos”, sabem acolher com muito respeito e cuidado a história de cada cliente/paciente. Procuram estar juntos na travessia, buscando a verdade de cada um, sem julgamento, sem preconceito ou qualquer restrição àquilo que é verdadeiramente humano.

Esta sou eu: uma psicóloga e psicoterapeuta humana. Eu choro, eu sofro, eu adoeço de vem em quando, também me fragilizo, “rodo a baiana” quando necessário, frequento bares, festas, tenho amigos e vida social. Eu gosto de mudar a cor do meu cabelo sempre que me dá vontade, fazer cortes “estranhos” ou exóticos, gosto de viajar sozinha, sou divorciada e acabei me tornando (por conta desta minha experiência de vida), uma terapeuta de casais (não escolhi isso, a minha vivência me levou para este trabalho). Não tenho filhos, e isso nunca foi um problema para mim. Tenho uma gata. Ela também é anormal (pois é muito “humana”). Ela veio de um cativeiro. Sofreu maus-tratos físicos e psicológicos. E veio para mim através de um amigo que também é “humano”. É um amigo especial, que adotou uma criança negra e com certa idade. Ele e seu parceiro afetivo são pessoas muito queridas por mim. Eu honro as pessoas autênticas que vivem sua vida independente da aprovação social. Desde cedo sempre me atraí por pessoas discriminadas pela sociedade, que sofrem preconceito, rejeição, abandono, maus-tratos.

E foi assim que eu me tornei a pessoa que sou hoje e a profissional que está inteiramente a disposição para ajudar aquele que também é humano, vulnerável, falível, frágil e ao mesmo tempo forte, capaz de transformar sua vivência traumática em aprendizado e superação.

Fico imaginando agora como deve ser difícil carregar em si o mito do psicoterapeuta perfeito: tem que se vestir muito bem, estar sempre maquiado (por dentro e por fora), não pode sair de casa sem pentear o cabelo, não pode frequentar certos lugares, tem que escrever e postar coisas que agradam a sociedade e que sirvam ao comércio ou à indústria da ajuda; tem que ser sempre muito educado, não expressar emoções, não falar palavrão, não divulgar absolutamente nada de sua vida, somente viagens em curso e especializações, não frequentar a noite ou as festas, não ter vida social na sua cidade. Lembro-me de uma psicanalista que viajava para POA nos finais de semana para poder se divertir porque achava que não encontraria nenhum paciente em Porto. Fiquei pensando: “precisamos fugir dos pacientes”?

Enfim, aviso aos navegantes dessa nave chamada rede social, que felizmente não sou “normótica”, sou gente, existo e sinto o que cada pessoa sente. Não há diferença nisso.

Obviamente que sei estabelecer a diferença entre os papéis que desempenhamos na relação terapêutica. Mas jamais deixarei de ser eu mesma e escrever o que penso e expressar o que sinto. Portanto, declaro, sou absolutamente humana.

A saber:
Para Weil, a Normose pode ser definida como um conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir, que são aprovados por consenso ou por maioria em uma determinada sociedade e que provocam sofrimento, doença e morte.

SAIA DA NORMOSE. SEJA VOCÊ!!

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