As múltiplas faces da depressão!

Quero trazer à reflexão um assunto que está em voga na atualidade: a depressão. O que proponho é um olhar voltado para as descobertas mais recentes, a começar pela indústria farmacêutica: nos últimos anos, a comercialização de medicamentos utilizados para depressão aumentou significativamente. Há drogas que apresentam o mínimo efeito colateral. São as chamadas “drogas de última geração”. É comum recebermos pacientes encaminhados por especialistas da área médica indicando um tratamento psicológico em conjunto com o tratamento farmacológico, depois de terem diagnosticado uma “depressão orgânica”. Com este enfoque, os especialistas que transcenderam a abordagem tradicional da psiquiatria ortodoxa e pouco efetiva, sabem que a origem da depressão é multifatorial e que a deficiência de determinadas substâncias no organismo não representa um único fator causal.

 Todavia, as mentalidades arcaicas ainda propõem um raciocínio simplista e perigoso para o paciente: que tal substância encontra-se deficiente no sangue de determinado paciente que clinicamente é visto como portador de depressão; embora os resultados e índices de normalidade obedeçam as estimativas de outros centros médicos norte-americanos e europeus cujos hábitos alimentares são bastante diversos dos nossos, mesmo assim passam a exercer o direito à interpretação de tais resultados. Ao avaliarem os resultados, duas possibilidades se destacam: o paciente está deprimido porque apresenta tal substância abaixo do esperado pelos norte-americanos e europeus, o que implicaria na administração dos medicamentos produzidos pelos laboratórios norte-americanos e europeus, ou a substância analisada estaria baixa porque o paciente está deprimido, o que resultaria na procura dos fatores causais da depressão e seu respectivo tratamento, quando a substância analisada voltaria ao seu índice de normalidade assim que fosse reestabelecido o equilíbrio psíquico do paciente.

Defendem a primeira hipótese aqueles que se mostram puramente organicistas em sua formação e são devidamente estimulados pelos laboratórios com resultados estimativos obtidos em animais de laboratório ou em pesquisas com populações controle nos centros menos desenvolvidos do bloco dos chamados terceiro mundo.
Por outro lado defendem a segunda hipótese aqueles que admitem que a mente preceda os eventos do corpo, incluindo-se as respostas na secreção dos neurotransmissores pelas células do sistema nervoso. Esses estudiosos estão à procura dos fatores causais da depressão na mente que supõem não estar contida no cérebro ou em outra parte do corpo humano, mas sim nele se manifesta sendo o mesmo receptor e transmissor da mente. Assim observam o ser humano dentro de uma proposta holística e tomam a mente como atributo do espírito e não do corpo.

Compartilho dos pressupostos apresentados pelo médico neurocirurgião e psicoterapeuta Antônio Carlos Costardi, autor das considerações iniciais feitas nesta matéria, fundamentadas em seu livro “Cartas a Uma Amiga”. Declaro que me encontro neste grupo de pesquisadores e estudiosos, onde para mim mais importante do que os sintomas e as queixas depressivas é o deprimido, sua história e seu estilo de vida. É aquele que se queixa, que apresenta sua mente comprometida necessitando de ajuda e tratamento efetivo.

De acordo com o pensamento e com a práxis terapêutica do autor destes apontamentos, você já observou como na história de vida de todo deprimido existe uma situação específica que o coloca diante da impossibilidade de manipular certas pessoas, coisas, situações, assuntos, opiniões, etc.?
Ao ouvir as queixas dos deprimidos no meu consultório, diariamente, deparo-me com um conflito intenso entre aquilo que são e o que gostariam de ser. São as chamadas “vítimas de si mesmo”. Este conflito estende-se para as situações do cotidiano onde aquilo que os deprimidos possuem mostra-se distante daquilo que gostariam de possuir, o que desejam daquilo que lhes é possível de desejar, quem com eles convivem e com quem gostariam de estar.
Este conflito egóico é comum a quase todos os seres humanos. Porém, algumas pessoas conseguem lidar melhor com estes conflitos do que outras. Outras entram em sofrimento intenso e permanente. Sentem-se profundamente frustradas, decepcionadas consigo mesmas e com os demais. Algumas, tão decepcionadas, buscam o suicídio como um desfecho para seu “estado de falência”. Para os casos de extrema “intolerância à frustração” costumamos dizer: “onde há distensão egóica, criado pelas impossibilidades de gozo e realização, ali existe um sofredor”.

No caso do deprimido ele mostra-se um perdedor. Aquele que lutou, tentou e que motivos vários, que divergem de deprimido para deprimido, não conseguiu satisfazer suas expectativas. Comumente passa a cobrar-se por sua incompetência, sente-se drasticamente fracassado e sem esperança para reiniciar sua jornada evolutiva. Desmotiva-se e deseja fugir do campo de luta que a vida representa por não suportar olhar para a sua realidade e dar-se por vencido.
Nas palavras sábias do psicoterapeuta: “Isto mostra-nos um orgulhoso que não deu certo, enquanto outros buscam os disfarces para encobrir suas incompetências”.
Um dos disfarces que o autor destas considerações se refere é o discurso usado pelas representações sociais, desde sempre utilizadas pelos orgulhosos fracassados. O exemplo são pessoas que elegem um cônjuge “pai-trocinador” numa relação tão somente parentalizada, onde o cônjuge firma um compromisso com a sua “amada” (ou o seu “amado”) de protegê-la de suas próprias mazelas, de seu passado aterrorizante e amedrontador, de sua profunda solidão e desamparo emocional, de seu próprio abandono, ou seja: de seu fracasso! Este pai-trocinador assina um contrato conjugal que propõe exclusivamente atendimento dos interesses secundários, os quais são, a todo custo, salvaguardados pelos seus fiéis escudeiros: o marido e a esposa. Nesta modalidade de relacionamento, firmam um pacto que os livraria de todo e qualquer sofrimento de origem primária como também de toda e qualquer possibilidade de confronto com a realidade, não necessitando de significativos investimentos afetivos na relação. A relação parentalizada ou patrocinada pelas representações sociais não exige investimento contínuo de afeto, nenhuma entrega afetiva maior, quase nada ou nada de intimização. O único compromisso ou envolvimento que eles têm é com os ganhos secundários desta modalidade de contrato conjugal, mas não com o afeto. Não se trata, portanto, de uma sociedade afetiva e sim de uma relação estabelecida por conveniências e interesses muito bem estabelecidos entre o “casal”, embora eles disfarcem bem.

Ainda nos tempos do saudoso psicoterapeuta Antônio Carlos Costardi, uma constatação teria sido feita: “declaro que certamente haverá um dia em que esses orgulhosos que aparentemente estão dando certo e sendo aceitos pela sociedade, deverão se deparar com as cobranças desta mesma sociedade e uma vez tendo caído suas máscaras, estarão se defrontando com as mentiras que construíram sobre si mesmos e sobre suas vidas. Neste momento acredito que a depressão estará se manifestando com todo o seu cortejo de sintomas, agravados pela somatória de mentiras que tenham criado. Quanto mais apego, maior a decepção e a cobrança que farão a si mesmos”.
Assim os deprimidos se mostram aos olhos de todos: como uma vítima das circunstâncias. Procuram sempre ressaltar um ou outro evento como sendo o responsável por seu estado de espírito.
Frequentemente a vítima (o deprimido) responsabiliza pessoas por não o terem compreendido ou por ter-lhes cobrado mais do que poderiam oferecer, quando não se dizem carentes de afeto e desprovidos de carinho por parte dos pais, do cônjuge e outros de quem cobram que lhes deveriam ter-lhe amado quando eles mesmos não o fizeram.
Nota-se todo um esforço por parte do orgulhoso em não aceitar sua incompetência afetiva e querer transferir a responsabilidade para os outros. Chamam a atenção insistentemente e forçam manobras de manipulação. Poderão não convencer os que não se sentem devedores, mas certamente ocasionam sentimentos de culpa naqueles que conviveram durante anos se sub-julgando às manobras articuladas pela manipulação direta dos antigos narcisos enclausurados em suas pretensas posses materiais e intelectuais e agora sem as máscaras, revelando o perfil daquele que sempre esteve doente apenas para disfarçar.
ORGULHO EM EXCESSO É DOENÇA!

Segue um exemplo: aqueles casos em que frequentemente vemos mulheres queixando-se de depressão e aparentemente mostram-se humildes, apresentam uma história de sofrimento e de dificuldades afetivas inúmeras no caminho de sua existência. Revelam na anamnese (nas entrevistas de avaliação) que só fizeram a vontade de seus parceiros e ou de seus filhos e que quando eram crianças o tempo todo serviam ao desejo de seus pais. Talvez com um pouco mais de ensaio consigam encobrir a figura orgulhosa que sempre procurou atender a solicitação dos outros para serem por elas reconhecida e valorizada pela competência com que davam conta das obrigações domésticas e de como atendiam aos textos na representação dos papéis de filhas, esposas e mães. Somente quando suas representações e mentiras não encontram mais público que as aplaudam é que passam a dar conta que deixaram de viver as suas vidas, se omitiram e tornaram-se subservientes ao desejo dos outros.
Quando são rejeitadas, perdem a preferência de seus parceiros e são trocadas por outros objetos de desejo, sentem que suas estratégias fracassaram e convivem com a depressão por serem também orgulhosas que não deram certo.

Cuidado! Não se deixe enganar por esses discursos aflitivos. Lembre-se sempre de investigar a alma humana em toda a extensão de sua existência. São muitos os disfarces e alguns orgulhosos extremamente competentes na arte de disfarçar.

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