Professora do curso de Psicologia da UCS vence Prêmio CAPES de Tese.

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Quem conhece minimamente o cotidiano de Raquel de Melo Boff, da Área de Conhecimento de Humanidades da Universidade de Caxias do Sul, sabe o quanto agitada é a rotina da jovem professora. O espírito sempre alerta e o gosto pelos estudos são percebidos na fala. Nas aulas, estimula os estudantes na busca por mais conhecimentos e, pelo exemplo, ela também demonstra isso: aos 38 anos, já concluiu o doutorado e agora pensa no pós-doutorado.

A dedicação foi reforçada no início do outubro, quando a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) anunciou a tese Efeito de uma intervenção interdisciplinar baseada no Modelo Transteórico de Mudança de Comportamento em adolescentes com sobrepeso ou obesidade como a melhor de 2017 no Brasil, na área da Psicologia.

“Fiquei muito feliz com o reconhecimento, um reforçador muito potente para que eu continue a caminhada no rumo que eu gosto, a pesquisa. No Brasil, fazer pesquisa não é algo muito simples, por toda a questão do escasso incentivo financeiro e pela dificuldade que há na dedicação exclusiva do pesquisador que, na maioria dos casos, divide-se entre outras tantas tarefas”, comenta Raquel.

O trabalho foi desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUCRS. Graduada pela UCS, atualmente ela integra o corpo docente do curso em que se formou. “Foi na UCS minha graduação, minha formação de base. Ao sair de Caxias do Sul para estudar em outras instituições, eu percebi a qualidade do curso de Psicologia que a UCS oferece. Sou muito grata à Instituição, aos professores que tive e ao conceito de educação que a Universidade preserva”, reforça.

A Tese

A tese trata de um ensaio clínico randomizado que foi testado numa intervenção motivacional para auxiliar adolescentes com sobrepeso ou obesidade a modificarem seus hábitos. Durante a pesquisa, Raquel, em parceria com outros pesquisadores, comparou dois grupos interdisciplinares. No chamado grupo de controle, buscou-se replicar o que a rede pública oferece aos pacientes. Ela comparou os efeitos com os resultados da intervenção feita em outro grupo, dessa vez, utilizando um Modelo Transteórico de Mudança (MTT), que já é amplamente conhecido para o tratamento da dependência química – só que aplicado em adolescentes para mudar o estilo de vida.

Ao todo, explica Raquel, foram 12 encontros grupais semanais, com uma hora e meia de duração cada um, sendo que foram feitas avaliações do perfil glicêmico, metabólico, antropométrico, nutricional, motivacional e de aspectos psicológicos, o que demonstra o caráter interdisciplinar de sua pesquisa.

“A conclusão do estudo demonstrou que, ao longo do tempo, quando feitas comparações entre grupos, ambas as intervenções obtiveram resultados positivos sobre peso, Índice de Massa Corporal, triglicerídeos, colesterol e hemoglobina glicada, compulsão alimentar e práticas alimentares e de exercício físico. No entanto, o efeito sobre essas variáveis e, especialmente, sobre a motivação intrínseca para manutenção da mudança, aumento de exercício físico e melhora na alimentação foi maior nos adolescentes que participaram do grupo de intervenção MTT”, explica a professora. Ela reforça que, diante dessa evidência, pode-se atentar para os aspectos emocionais como mediadores da mudança.

Raquel destaca que foram analisados também dados referentes à desistência do programa. De acordo com ela, a literatura demonstra que há uma desistência de 50% na participação de adolescentes em programas de perda de peso. “Concluímos que o principal preditivo (previsão testável) para isso é a falta de apoio da família. Assim são necessárias modificações intrafamiliares para que o adolescente consiga perder peso e melhorar suas condições de saúde”, aponta.

Ao final, a pesquisa analisou os mesmos adolescentes três meses após se desligarem do programa e, para surpresa do grupo de estudiosos, aqueles que participaram da intervenção motivacional conseguiram manter a perda de peso, a melhora no perfil de saúde, o controle de compulsão alimentar e a motivação para manter as mudanças. “Montamos um programa de intervenção que pode ser facilmente aplicado na rede pública de saúde, desde que os profissionais de atenção básica sejam capacitados para isso”, contextualiza Raquel.

O Modelo Transteórico

O Modelo Transteórico de Mudança (MTT) surgiu nos Estados Unidos entre as décadas de 1980 e 1990, a partir dos trabalhos dos psicólogos Carlo Diclemente e James Prochaska, para ser utilizada na dependência química.

De acordo com Raquel, os autores preocuparam-se em estudar o que faz com que as pessoas mudem seus comportamentos, sejam aquelas que estejam passando por um processo terapêutico ou não.

Os terapeutas chegaram à conclusão de que a mudança de comportamento é um processo, não um produto, e engloba dimensões temporais, ou seja, estágios que demarcam o quão pronta uma pessoa está para fazer uma mudança e isso envolve processos cognitivos e comportamentais. Ainda a tomada de decisão pela mudança, crenças de autoeficácia – conceito que diz o quanto o sujeito acredita na própria mudança –, e, por fim, fatores internos, como personalidade e questões emocionais, e externos, como questões econômicas e sociais.

“O papel do profissional de Saúde é reconhecer a melhor forma de conduzir o cliente ou paciente para mudar um comportamento. Por exemplo, a maioria das pessoas sabe que é importante se alimentar bem e fazer exercícios físicos, ou até mesmo deixar de usar drogas, mas para algumas delas, cessar ou manter estes comportamentos é extremamente difícil”, pondera.

Nesse sentido, não seria efetivo dizer o que o indivíduo deve fazer, porque de fato ele já sabe, complementa Raquel. “Este modelo agrega uma forma diferente de intervenção, na qual o profissional não é diretivo, não se coloca numa posição de pressionar o paciente a mudar, mas de conduzi-lo a fazer isso”.

Obesidade preocupa

A obesidade entre os adolescentes quadruplicou nos últimos trinta anos, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde. De acordo com Raquel, um estudo multicêntrico denominado ERICA mapeou em 2015 a saúde de estudantes brasileiros entre 12 e 18 anos e chegou a uma prevalência assustadora de fatores de risco cardiovascular, como hipertensão (12,5%), obesidade (8,5%) e síndrome metabólica (2,8%).

“E todos os índices são ainda maiores na região Sul. A grande questão é que a manifestação de fatores de risco para doenças cardiovasculares de forma precoce pode diminuir a sobrevida da população”, compara.

Fotos: Claudia Velho

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