A fragilidade dos laços sociais na contemporaneidade

By Patrícia Luiza Prigol

Precisamos entender os valores humanos vigentes em nossa sociedade para compreender a fragilidade dos laços sociais. Neste sentido, vou me apropriar do conceito que o sociólogo polonês Zigmunt Bauman criou para definir o momento que atravessamos. Uma sociedade neoliberal, pós-moderna e, pasme, segundo Bauman, uma sociedade “líquida”.

Vivemos, portanto, a liquidez nos laços sociais e a consequente superficialidade nas relações, denunciando um novo movimento que declara a irrecusável busca de sentido, ao mesmo tempo em que “insinua” a possibilidade de construção de uma nova identidade social.

Os movimentos comportamentais, nesse novo cenário, simbolizam a proposta contida na instauração da modernidade que resultou nesta “liquefação dos vínculos”. Somos resultado dos efeitos da globalização que contribuíram para este novo cenário.

A professora de filosofia contemporânea Scarlett Marton, da Universidade de São Paulo, afirma: “Vivemos um período de relativismo, não temos princípios tão firmes como os que existiram na sociedade vitoriana do século 19 ou mesmo na nossa sociedade das primeiras décadas do século 20. A ideia de que é preciso ter uma visão de conjunto do processo histórico e da sociedade, uma concepção do homem e da sua inserção social, histórica e cultural, tudo isso está caindo em desuso e sendo substituído por algo fragmentário”.

Também fracassa toda e qualquer tentativa de aprofundar relações assumindo compromissos mais duradouros. Como bem retrata Bauman, num de seus livros, O Amor Líquido: “(…) é como procurar um abrigo sem vontade de ocupá-lo por inteiro”.

Somos levados por esta cultura que apresenta um MUNDO INSTANTÂNEO e um “manual de instruções” ditando a regra principal: “é preciso estar pronto para outra”, e a qualquer momento. Ou, então, é preciso estar pronto para manter relações afetivas fracassadas já que não sabemos mais distinguir umas das outras ou porque perdemos a capacidade de manter relações baseadas na entrega, no compromisso real e efetivo para com o outro. Sendo assim, saberemos viver sem esse cenário de ilusões que as redes sociais promovem para nos ajudar a “fazer de conta” que somos felizes e que as relações continuam “intactas”, que o casamento e a família são cultivados com base no compromisso, num real investimento, com doação, entrega, portanto, pode ser permanente?

Em nossa atual sociedade, para “pertencer” e corresponder a esta ordem social, é preciso se ligar, se conectar com o mundo, mas é imprescindível cortar dependência. Deve-se amar, porém sem muitas expectativas, pois elas podem rapidamente transformar um bom namoro num sufoco, numa prisão. O que essa sociedade líquida nos diz, a todo momento: um relacionamento intenso pode deixar a vida um inferno! Entretanto, nunca houve tanta procura em relacionar-se.

Bauman vê homens e mulheres numa verdadeira trincheira sem saber como sair dela e, o que é ainda mais dramático, sem reconhecer com clareza se querem sair ou permanecer nela. Por isso movimentam-se em várias direções, entram e saem de casos amorosos com a esperança mantida às custas de um esforço considerável, tentando acreditar que o próximo passo será o melhor.

Ele ainda acrescenta: “(…) os habitantes circulando pelas conexões líquidas da pós-modernidade são tagarelas à distância, mas assim que entram em casa, fecham-se em seus quartos e ligam a televisão. A solidão por trás da porta fechada de um quarto com um telefone celular à mão parece uma condição menos arriscada e mais segura do que compartilhar um terreno doméstico comum.

Hoje, estamos mais bem aparelhados para disfarçar nossos medos antigos. Nesta sociedade líquida, tememos o que em qualquer período da trajetória humana sempre foi vivido como uma ameaça: o desejo e o amor por outra pessoa.”

Se por um lado vivemos a era do individualismo, por outro temos a chance de transformar este cenário, podendo estabelecer relações mais construtivas, com flexibilidade e liberdade do SER. Avançar, no sentido da evolução do homem, não significa deixar “a fila andar” ou permanecer no “faz-de-conta” que somos todos eternamente felizes, mas rever conceitos e valores trazidos nesta possível mudança de mentalidade que exigirá de todos nós um maior investimento (afetivo) em todas as nossas relações.

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