Sob outro prisma | O mundo não é mais o mesmo

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Hoje acordei normalmente como sempre faço, levei meu pequeno para a creche, alimentei os cachorros, alimentei a mim mesmo e entre uma notícia ruim e outra, passava os dedos pelo controle da televisão na esperança de que o rumo das coisas pudesse mudar de alguma forma.

Não tem como vivermos num mundo onde apenas o que é ruim tem ênfase, então, pela primeira vez, ao menos que eu lembre, tomei o livro chamado ‘Um homem de Sorte” do Nicholas Sparks nas mãos e li duas ou Três páginas. Confesso que gostei do que li até então e numa promessa a mim mesmo, levarei a leitura até seu final, quem sabe não abro mais minha cabeça para o horizonte sob o ponto de vista de outra pessoa, que seja apenas na ficção, pelo menos terei o que falar daqui há alguns anos ao meu filho Pedro, lhe direi que apesar de escrever muito e entender bastante sobre um monte de coisas, nunca havia lido uma obra, nem ao menos para que servisse de parâmetro para ser meu ponto de partida.

Voltando ao mundo real, assisti a duas reportagens que me marcaram muito e que conseguiram fazer com que as lágrimas chegassem nas duas oportunidades. Uma dizia sobre a redenção do ser humano, numa formatura onde um rapaz de uma universidade americana, portador de síndrome de barulho, chegou lá, se formou e viu chegar o grande dia de receber o canudo. Um ginásio lotado, o mestre de cerimônia anunciou um a um os nomes e ecoou silente as palmas repetidas vezes. Quando chegou a vez do rapaz, o mesmo colocou os dedos no ouvido para não ficar nervoso e ter uma crise quando estivesse percorrendo os intermináveis 20, 30 metros até receber o diploma. A platéia, mesmo não tendo sido nada combinado, simplesmente se calou e aplaudiu sem fazer um único ruído sequer. Ele pode então ser diplomado, oficialmente formado, acarinhado e respeitado na sua maior forma e condição que Deus lhe deu. Confesso que aquele gesto eu já havia assistido quando fui convidado a fotografar uma festa de surdos mudos há alguns anos atrás aqui em Caxias do Sul. Foi algo diferente e que me fez sentir um ignorante por não entender nada do que estava acontecendo, apenas ver as pessoas, na sua maioria surdas-mudas, dançando alegremente e interagindo através de sinais.

Depois na segunda reportagem, uma senhora que havia contraído uma doença degenerativa fez uma rifa do seu carro, seu ganha pão, para chegar o mais perto possível dos R$ 100 mil para pagar o tratamento, já que o SUS havia recusado seu pedido de realizar a cirurgia.

Chegou o dia de entregar o prêmio ao vencedor. Mas Deus observa tudo e coloca os seus anjos como instrumentos. O ganhador da rifa simplesmente pegou a chave e devolveu o carro, dizendo que ele não estava no mundo para se beneficiar do sofrimento dos outros e sim para ajudar e assim estava devolvendo o carro que é na verdade o sustento da moça e da sua família. Antes disso ela havia recebido há alguns dias atrás a notícia de que o SUS finalmente faria a cirurgia, o procedimento foi realizado e mesmo assim, não evitou que a mesma ficasse em coma entre a vida e a morte por alguns dias, quase sem visão e fisicamente muito debilitada.

Ela acabou, com a graça de Deus, se recuperando e voltou à vida para a felicidade dos filhos e demais familiares.

Me pergunto muitas vezes se somos o suficiente generosos para nos colocarmos no lugar do outro em detrimento de nós mesmos, será que a nossa generosidade está associada á nossa condição financeira?. Até que ponto precisamos mostrar aos outros que somos poderosos, que temos o carro dos sonhos, a casa de cinema, uma sala com sofá de três lugares que vale R$ 15 mil, R$ 20 mil. Até onde vai a vaidade do ser humano, até onde o ter significa mais do que o ser?

Tenho feito amigos ao longo desses anos em que Deus tem me concedido a graça de viver, muitos já estenderam a mão para em algum momento me amparar, também muito já fiz enquanto tive lastro para isso. Gostaria de poder fazer mais, quero crer que não precisaríamos ver todos os dias gente deitada nas calçadas cobertas da cabeça aos pés como se ali fosse o seu quarto ou seu único objetivo na vida. Queria deitar ali do lado e poder ouvir todos os seus lamentos, me inteirar sobre o seu dia, o que ele planeja para hoje, amanhã ou depois e se ele ao menos tem dinheiro para comer uma refeição que possa lhe dar forças para fazer planos para os outros desafios que ainda vai enfrentar nessa vida.

Saber-se rico é bem mais do que simplesmente ter de tudo o que o dinheiro pode comprar, ter espírito empreendedor não é apenas abrir uma empresa e alardear para todo mundo a imensa capacidade de criação pessoal, mas acima de tudo, abrir mais frentes de trabalho, dar o que comer às famílias que estão à margem da sociedade, que muitas vezes não têm um pedaço de pão, uma calça, um sapato para calçar nos pés cheios de feridas ou sujeira que a rua lhe deu como prêmio por sua caminhada rumo ao desconhecido, ou ao nada.

Ter a quem recorrer é privilégio de poucos, raramente alguém tem a capacidade de acolher a não ser alguns do seu próprio sangue, convívio, os mais capacitados, os já bem abastados. Posso contabilizar pelo menos 10 pessoas que chamo de amigos de verdade, que não me olham de cima à baixo sempre que nos encontramos, pelo contrário, sabendo que não sou fresco, que sou simples e não deixo o meu orgulho interferir nas minhas atitudes perante os outros, especialmente aqueles que comem à minha mesa ou que poderia me fazer uma visita fora de hora, de forma inesperada e provar meu pão que faço tão bem.

Partindo da premissa de que o mundo fosse acabar hoje e que apenas alguns irão sobreviver, não tenho muitos para colocar na arca da minha vida, apenas os muitos que talvez esses dez que tenho também tivessem para levar junto, então, zerar tudo, bola no centro do campo. Está dada a partida, vamos iniciar uma nova etapa, mas agora, teremos tempo para nos conhecermos melhor, deixaremos para trás os velhos rancores, não haverá mais tecnologia, não precisamos enviar mensagens por watts, seremos e teremos um ao outro olhando cara a cara sem máscaras, pois o destino quis que apenas os bons sobrevivessem e esses são em número muito pequeno, certamente caberão nas arcas que Deus preparou para nós e disponibilizou para a nossa sobrevivência.

O melhor de tudo sobre essas arcas, é que elas não pegam sinal de wi-fi e que a única rede que podemos fazer uso é a da cooperação, viver como iguais, onde a roupa, o carro, o celular e a casa que quase não usufruímos serão apenas coisas que nos faziam mal, afinal o que adianta dizermos amigos de face se nem conhecemos 90%, e para quê uma casa com 3, 4 dormitórios se praticamente passamos 70% do tempo fora de casa preocupados em ganhar mais dinheiro para deixarmos para nossos filhos brigarem no futuro para saber quem ficará com a maior parte do bolo.

Vou ler vários livros, mas vou focar no meu próprio livro e relatarei nele todas as amarguras e felicidade que causei, vivi, sofri ou deixei de experimentar e que no final das contas, me fortaleceram para que eu pudesse contemplar do alto da minha linha imaginária sobre tudo o que diz respeito às diversas formas da minha vida.

Fico sem saber o que fazer quando penso que o ser humano ainda não entendeu a sua real condição aqui na terra. Experimenta coisas que nunca pensou que existisse, desqualifica o seu semelhante sem saber os motivos que o levaram a ser o que é, ao mesmo tempo em que nem sabe para que lado a sua vida está indo.

Nem sempre a melhor escolha seja a mais acertada, muitas vezes a pior pode ser a saída para todas as nossas necessidades. Alguns vivem retamente, sem curvas, não dobram esquinas, não fazem planos, apenas vão seguindo sem planejar. Não vivem seus sonhos, se espelham nos outros e acreditam que estão certos. Não entendem que todos terão a chance de alcançar o objetivo, mas que talvez, por uma ou outra razão a hora desses ainda não tenha chegado.

Enquanto isso, mais maleável em função das escolhas pelos caminhos mais difíceis, ficarei aqui só observando os rumos de toda essa onda, levarei sempre para o meu travesseiro os meus dilemas, as expectativas, os meus sonhos e os prenúncios de boa aventurança que tenho a certeza ainda me conduzirão aos caminhos certos e pavimentados.

A propósito do pavimento, ele é bonito, combina com meu carro chic, mas não evita o alagamento das casas das famílias que vivem às margens dos rios, riachos e córregos e tão pouco assegura tranqüilidade e paz aos pássaros, répteis e demais seres vivos que têm suas moradias destruídas em favor do progresso e da vaidade do homem.

Então tenho uma lista enorme de infortúnios ou de contemplações que se estendem pelo meu imaginário ou da fina camada de dignidade que tenho quando penso que o meu maior desejo é ser apenas uma pessoa que viveu nesse tempo e pode fazer a diferença.

Não se engane com minha tez, com a face por vezes tristonha e deveras risonha quando alcanço um pequeno sucesso, sei que a minha capacidade está muito acima das oportunidades que eu possa receber enquanto pedinte de atenção, afinal sou um ser em construção, um legado de mim mesmo que lá atrás, num caminho e jogo de escolhas que deixei escapar entre os dedos, como areia que não tem consistência, sempre que buscamos ancorar nossa resistência.

Existem tantos provérbios, frases feitas que me vêm à cabeça nesse momento, mas até nisso sou reticente e resistente, nada que vem pronto me acolhe, prefiro sempre contemplar os meus feitos, pavimentar a minha estrada de forma perfeita, num mundo imperfeito, mas que mostra todos os dias os preâmbulos e as interfaces que a vida me dá como formas de me manifestar e expressar diante de todos os que contemplam minhas características bizarras e até meu altruísmo construtivo.

Certamente ainda terei tempo suficiente para desenvolver meu silêncio envelopado sem a necessidade de grandes alardes. Deus, sabedor de todas as minhas intenções, dirá em alto e bom tom o meu lugar correto nesse mundo. Nesse momento que afirmo minhas convicções, peço por favor um pouco de silêncio, pois eu mesmo já me condiciono estrategicamente à beira da estrada para pegar o bonde da minha história e contar aos quatro ventos que desta vida levarei apenas minha caneta, um bloco de anotações e imagens repetidas de todos aqueles que se despiram da sua falta de tempo para ler com carinho palavras que não tiveram rascunho e que talvez tenham sido escritas à quatro mãos, pois nesses dias que antecederam, a cabeça mergulhou serenamente para o teclado e viu brotar as linhas, uma a uma.

Um momento de pura observação e contemplação, agora avisto ao longe, sem a necessidade de correr, devo esperar, me preparar, pois o tempo está a meu favor e esse será meu aliado na mais longa jornada que tive o privilégio de percorrer.

By Laudir Dutra

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