Música | Chico Buarque – Uma Carreira Literária

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Se você é daqueles que desconfia quando alguém muito bem-sucedido se arrisca em outra área, ou, no caso, da arte, uma ramificação dela. Pode pensar mal de Chico Buarque ou duvidar de sua capacidade como escritor. Do meu ponto de vista Chico até contribuiu para que essa percepção aumentasse, pois sua produção literária até certo ponto foi quase como tratada como um evento de alguém bem-sucedido que tinha tempo de sobra pra fazer sua graça em outra área das artes. Visto que seu primeiro livro foi publicado em 1974.

Fazenda Modelo (1974)

Em Fazenda Modelo, “novela pecuária”: Chico Buarque tece uma alegoria sobre a sociedade dos homens – falando, no entanto, exclusivamente de bois e vacas.Trata-se de uma parábola sobre o poder, a respeito das formas de dominação social sobre o rebanho humano. E a forma de dominação mais radical é usurpar do indivíduo – sempre em nome dos mais santos princípios – qualquer possibilidade de assumir seu próprio destino pessoal. A Fazenda modelo é uma comunidade bovina que começa a crescer e que se vê – através da liderança mansa do boi Juvenal, o bom – submetida a um processo radical de transformação, de “progresso”: em que tudo que era natural é considerado “atrasado” ou “pecado” e passa a ser cientificamente regulado. Destroem-se todas as formas de autorregulação do indivíduo, desde as alimentares até as sexuais: a procriação na Fazenda Modelo estava garantida através da inseminação artificial – do banco de espermas do touro Abá, o Grande Reprodutor. Juvenal abolira o relacionamento sexual do rebanho, totalmente voltado à reprodução. E o filho de Abá, Lubino, deveria suceder o pai nessa gloriosa tarefa de “rapador” da Fazenda Modelo.

Depois disso, Chico foi quase completamente esquecido como escritor, a não ser por fãs mais mordazes. Certamente na cabeça do Chico passava algo como uma inquietação de ser ou não ser. Ele sabia que a luz que ofuscaria tudo aquilo que escrevesse seria enorme, luz essa vindo de seu patamar como compositor. Ele sabia que era muito trabalho e talvez só o tomasse tempo e que ninguém ligaria a não ser que fosse bom. Ele também sabia que as maiorias das pessoas seriam cautelosas e teriam um pé atrás (ainda hoje é assim). Mas então ele se esforçou para voltar, pois certamente tem em si a necessidade de contar uma história mais longa que em suas canções não é possível. Em 1991 publicou Estorvo. Eu particularmente não gosto, mas parte da crítica aceitou bem. Mas com certeza, nessa época, Chico não era considerado promissor como escritor. Todos tinha a impressão que seria assim, livros com longos hiatos uns dos outros e que talvez até o fim da vida lançasse mais dois.

Estorvo (1991)

Para produzir seu primeiro romance, Chico Buarque paralisou a carreira musical durante 13 meses (entre maio de 1990 e junho de 1991). Pela primeira vez utilizou-se de um micro-computador (presenteado por sua então esposa Marieta Severo) para escreveu 141 páginas divididas em 11 capítulos. O livro quase não foi lançado devido ao editor Luiz Schwarcz perder o disquete com o texto original. Por sorte Chico havia entregado uma cópia impressa do trabalho, que serviu de base para a produção do livro. Seu lançamento foi marcado para a V Feira Internacional do Livro no Rio Centro em agosto de 1991. A tiragem inicial, estabelecida em 30 mil cópias, esgotou-se dois dias após o lançamento. Ao mesmo tempo, 3 editoras estrangeiras adquiriram os direitos de lançamento do livro.

Mas Chico pareceu decidido a continuar a escrever e trouxe algo melhor com Benjamin. Entretanto se analisarmos até aí não sei se tirássemos o nome de peso de Chico os livros teriam 20% das vendas. E quase certo que Estorvo não levaria o Prêmio Jabuti tendo o nome de um autor desconhecido na capa. Portanto até Benjamin a qualidade literária de Chico Buarque é morna, ele é um bom escritor, mas ainda está muito, mas muito longe de sua estatura como compositor (digo em qualidade artística e não fama.)

Benjamim (1995)

Benjamim, publicado em 1995, é o segundo romance de Chico Buarque. O texto – entregue para a editora ainda sem a última frase, que definiria o desfecho da história – foi escrito durante um ano de intenso trabalho. O resultado é um livro um tanto cinematográfico, como diz o autor: “de certa maneira, as imagens vão me guiando”.

Então houve mais um hiato, muita gente nesse tempo esqueceu de Chico escritor. Foram 8 anos desde Benjamim. E inesperadamente em 2003 Chico traz ao público um livro que para a maior parte do público, como eu, torna Chico um escritor. Ou seja, a luz do compositor não ofusca tanto diante a esse novo facho. Depois de ler Budapeste Chico definitivamente se divide num híbrido de dois artistas na cabeça de muita gente, inclusive na minha. Diferente de Estorvo, que teve certamente a coadjuvação do nome de Chico para chegar ao prêmio Jabuti, em Budapeste o nome de Chico é só um detalhe. O livro ganha o Jabuti de 2004 com todos os méritos, pois é o melhor livro brasileiro lançado no anterior. (Se alguém tiver um livro melhor para mostrar, por favor envie.) Budapeste é um livro da linguagem, do ritmo, do som, da engenhosidade narrativa. O livro é tão bom que o próprio Saramago ficou muito surpreso!

Budapeste (2003)

Em Budapeste o narrador José Costa é um ghost-writer, pessoa especialista em escrever cartas, artigos, discursos ou livros para terceiros, sob a condição de perma-necer anônimo. Costa escreve os textos na Cunha & Costa Agência Cultural, firma em que é sócio com o seu amigo de faculdade Álvaro Cunha, este especializado em promover o trabalho de José Costa.

Na volta de um congresso de autores anônimos, Costa é obrigado a fazer uma escala imprevista na cidade título do romance, o que desencadeia uma série de eventos que constituem o centro da trama: casado com a apresentadora de telejornais Vanda, Costa conhece Kriska na Hungria, que o apelida de Zsoze Kósta e com quem aprende húngaro – segundo o narrador, “a única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita”. Entre as diversas idas e vindas entre Budapeste e o Rio de Janeiro, a trama se alterna entre o seu enfeitiçamento pela língua húngara e o seu fascínio em ver seus escritos publicados por outros, bem como o seu envolvimento amoroso com Vanda e Kriska.

Depois de alcançar isso, Chico deve ter se sentido aliviado, mas não menos consciente de que assumira uma responsabilidade. Teria que manter o nível de Budapeste.

Em 2009 Leite Derramado mantêm a qualidade, se não a altura de Budapeste, é ainda um romance de porte.

Leite Derramado (2009)

Um homem muito velho está num leito de hospital. Membro de uma tradicional família brasileira, ele desfia, num monólogo dirigi-do à filha, às enfermeiras e a quem quiser ouvir, a história de sua linhagem desde os ancestrais portugueses, passando por um barão do Império, um senador da Primeira República, até o descendente, garotão do Rio de Janeiro atual. Uma saga familiar caracterizada pela decadência social e eco-nômica, tendo como pano de fundo a história do Brasil dos últimos dois séculos. A visão que o autor nos oferece da sociedade brasileira é extremamente pessimista: compadrios, preconceitos de classe e de raça, machismo, oportunismo, corrupção, destruição da natureza, delinquência.

Decidido a não deixar de escrever mais Chico busca dividir suas turnês e seu espaço-tempo criativo como compositor em um bloco e em outro o período para ser escritor, e ele parece ter encontrado o tempo ideal de 5 anos de um livro para outro. Em 2014 lançou um novo livro O Irmão Alemão. O livro traz uma curiosidade pessoal, o fato de Chico ter um irmão alemão, fato que ele descobriu na casa do poeta João Cabral.

O Irmão Alemão (2014)

O romance mistura elementos autobio-gráficos e fictícios acerca da existência de um irmão alemão de Chico Buarque, filho de Sergio Buarque de Holanda (no livro retratado como Sergio de Hollander) durante o tempo em que o mesmo morou na Alemanha, e narra a incansável busca empreendida pelo narrador, no intuito de encontrar esse irmão que nunca chegou a conhecer.

Em 2019 Chico lança o seu Essa Gente, que hoje 09 de Janeiro de 2020 figura ocupa o topo da lista de mais vendidos.

Essa Gente (2019)

Um escritor decadente enfrenta uma crise financeira e afetiva enquanto o Rio de Janeiro colapsa à sua volta. Tragicomédia urgente, o novo romance de Chico Buarque é a primeira obra literária de vulto a encarar o Brasil do agora

Chico Buarque foi laureado com o Prêmio Camões pelo conjunto de sua obra. A obra de Chico tem muita qualidade sem dúvida, mas você o que acha? Se fosse a mesma obra e não fosse Chico Buarque, esse suposto autor receberia o grande Prêmio Camões? Bem na minha humilde opinião Chico tem méritos para tal, mas tem sim muita gente que poderia estar no lugar dele em relação a conjunto da obra.

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